Sábado, 25 de Novembro de 2017
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Denúncias de racismo explodem, mas sanções são raras no esporte

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Os jogadores negros estão mais confiantes para denunciar casos de discriminação racial no Brasil. Por outro lado, as federações estaduais e a justiça desportiva continuam tratando o tema como uma questão secundária. Com isso, as punições são exceções. Essa postura se reflete na esfera criminal. Em sete casos, apenas um torcedor foi indiciado por injúria racial. Esse é o balanço feito por atletas vítimas de racismo e especialistas.

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Apesar do trauma, Aranha está satisfeito. “Os torcedores disseram que fizeram aquilo por causa da paixão pelo clube. Então é justo que a punição tenha relação com essa paixão”, afirmou o goleiro do Santos, em entrevista exclusiva. “Aquilo” aconteceu no jogo entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil, em 28 de agosto, em Porto Alegre. Torcedores xingaram o goleiro de “macaco”. O Grêmio acabou eliminado da competição pelo STJD. Acontece que o racismo é crime.

Os torcedores e Patricia Moreira, Eder Braga, Fernando Ascal e Ricardo Rychter poderiam pegar de um a três anos de prisão. Poderiam. Mas aceitaram a proposta do juiz Marco Aurélio Xavier, de Porto Alegre, e o processo foi suspenso. Terão que se apresentar a uma delegacia a ser determinada, uma hora antes de cada jogo oficial do Grêmio, em Porto Alegre, durante 10 meses.

O caso de Aranha foi em agosto. Cinco meses antes, em março, o árbitro Márcio Chagas da Silva ouviu “volta pra selva”, entre outros xingamentos, no jogo Esportivo x Veranópolis, pelo Campeonato Gaúcho. Na saída do estádio, encontrou as portas do seu carro amassadas e bananas no capô. O Esportivo acabou rebaixado não pelo caso, mas pela escalão irregular de um jogador.

O inquérito policial foi concluído sem indiciamentos em julho, no dia de Brasil x Colômbia. A delegada Maria Isabel Zerman ouviu mais de 20 pessoas sem identificar suspeitos. O Ministério Público que solicitou novas diligências. “Muitos negros afirmam que têm mais coragem depois do que eu fiz", disse Márcio, hoje comentarista de tevê.

Arouca tem outro ponto de vista e não quer mais falar sobre esse assunto. Viveu situação semelhante no jogo contra o Mogi Mirim pelo Campeonato Paulista quando foi chamado de macaco. O fato foi visto pelos repórteres e policiais à beira do gramado, mas nada aconteceu. O Mogi foi punido em R$ 50 mil. “Se a autoridade age dessa forma, imagine o cidadão comum”, confidenciou o atleta às pessoas mais próximas.

Na opinião do cientista social Marcel Tognini, Arouca tocou no ponto central da questão. “Os crimes de racismo são desqualificados pelos tribunais com penas menores, como serviços comunitários. É um retrocesso”.

Esse cenário ilustra um caso de Santa Catarina. O zagueiro Antonio Carlos, do Avaí, foi punido por cinco jogos por ter xingado o atacante Franci, então no Boa. De novo, “macaco”. O inquérito criminal travou. O jogador ainda não foi ouvido porque o escrivão saiu em férias e, em seguida, o delegado também. O inquérito está no 2.º Distrito Policial de Florianópolis e deverá ser concluído em janeiro.

Naturalmente, em todos os casos os acusados tiveram oportunidade de se defender. Antonio Carlos, por exemplo, afirmou que disse “malaco”. Os dirigentes do Esportivo afirmaram que o árbitro Márcio Chagas da Silva havia colocado as bananas em seu carro de propósito. Patrícia Teixeira disse que não era racista e que já namorara um negro.

Esse também foi o argumento do caminhoneiro e torcedor do Mamoré Marcelo Carlos Fernandes, o único indiciado por injúria racial em todos os casos no Brasil em 2014. Ele nega que tenha ofendido o jogador Francisco Assis, do Uberlândia, no Campeonato Mineiro, em Patos de Minas. Seu principal argumento foi a noiva negra.

PROPOSTAS - A principal sugestão das vítimas é aproveitar a tecnologia das novas arenas para identificar eventuais agressores. Vale o mesmo para a venda de ingressos pela internet. Hoje, é fácil saber quem está no estádio. A maioria discorda da punição aos clubes e reforça que o castigo individual é fundamental. Por fim, pedem que o policiamento não faça vistas grossas.

Nesse contexto, Tognini também critica as campanhas institucionais. No dia 16 de abril, a CBF estampou faixas com o slogan “Somos todos iguais”, em preto e branco, nas partidas do Brasileirão. “Essas campanhas não levam a nada. Já eram feitas há três Copas atrás”, afirma. “Praticamente não existem dirigentes negros nas confederações”, argumentou.

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